Por que precisamos de novas abordagens para a narrativa digital

A maneira como contamos histórias em meios impressos tem sido basicamente a mesma há algum tempo.  Espaço restrito e layout gráfico limitado têm transformado o fluxo narrativo em uma colcha de retalhos.  Com o advento de dispositivos digitais e novas e mais ricas maneiras de se distribuir o conteúdo, é preciso repensar como nós produzimos e apresentamos nossas histórias. Observar por que a experiência da narrativa-quebrada acontece pode nos ajudar a descobrir como evitar isso nos meios digitais.

Considere que a experiência da narrativa linear é como ir ao cinema ver um filme. Você pode estar vendo “Momento”, um filme tradicionalmente não-linear, no qual o filme avança e retrocede no tempo, mas você vai ao cinema e vê uma história sem interrupção, independente de como a história é contada. Ela se desdobra de forma linear.

Da mesma forma, quando se fala em uma narrativa não-linear, não estamos nos referindo a sua linha temporal, mas às interrupções da história, como se você fosse ver “Momento” e o filme fosse interrompido no meio por um documentário sobre a produção.

Interrompendo histórias
Imagine uma grande palestra que você assistiu no passado. O que fez dela uma grande experiência narrativa? Além do conteúdo e da habilidade do palestrante de contar uma ótima história, uma  boa palestra é um fluxo linear de informação, com começo, meio e fim. Esse é o princípio de uma história; nós somos familiarizados com isso desde cedo.

Olhemos um pouco mais a fundo. No início de uma palestra, o orador vai introduzir um assunto passo a passo.  Ele metaforicamente pega a platéia pela mão, passeando com ela. De repente, no meio de uma frase – “e então podemos concluir que…” – o palestrante para. Ele então fala “Sabem de uma coisa? Acabei de me lembrar que eu tenho uma ótima foto em algum lugar no meu computador que tem a ver com o assunto.” Ele encontra a imagem e mostra para o público.  Realmente fez sentido e a foto acrescentou mais uma camada de informação. Após mostrar a imagem, o palestrante volta a falar do ponto em que havia parado a frase.

Agora imagine que esse discurso continue a ser interrompido de novo e de novo. O palestrante continua jogando coisas que se relacionam ao assunto e à história, mas sem se importar com as interrupções.

A narrativa iria por água abaixo.

Esse exemplo também ilustra como apresentamos ou consumimos notícias em diversos meios atualmente. Em meios impressos, por causa das limitações de espaço físico que as páginas impõem e da maneira como o design gráfico lida com elas, a apresentação e o consumo de uma história se torna uma experiência de narrativa não-linear. Fotos, texto, legendas, etc. tudo é relacionado à história que está sendo contada, mas a forma como os pedaços da história são dispostos reforça sua não-linearidade.

Considere o seguinte layout de uma matéria de revista. Ele tem um pouco do conteúdo que se espera de uma revista: texto em colunas, fotos com legendas, gráficos e boxes com uma história relacionada.

Todos os aspectos dessa história são relacionados e reforçam a informação que está sendo passada. Mas, como estamos apresentando todo este conteúdo em oito páginas, algumas perdas acontecem. Os diagramadores devem buscar a melhor forma de tornar essa história apresentável, agradável à leitura e envolvente. Trabalhando dentro dos limites físicos das páginas, o texto é colocado em colunas e segue de uma extensão a outra sem muito controle sobre onde há a quebra de uma coluna pra outra, de uma página pra outra ou mesmo uma virada de página.

Além disso, a fim de organizar todos os elementos da história, os diagramadores precisam garantir que cada página tenha um elemento graficamente importante. Isso significa que imagens da história serão colocadas nos blocos de texto para favorecer o envolvimento visual. O mesmo acontece com os boxes e os gráficos do nosso exemplo.

O que isso significa para a experiência de narrativa linear dos leitores? Como cada pedaço da história é distribuído nas páginas, imagens e outras informações relevantes raramente serão apresentadas no melhor lugar para a experiência narrativa. Os leitores vão ter que parar de ler o texto principal para absorver a informação da imagem, ou vão ter que ler mais até encontrarem um lugar “seguro” para parar o texto principal e só então ler o box. A narrativa é quebrada e, se representada como um gráfico, pode nos lembrar a imagem da palestra ruim.

Em muitos sites, infelizmente, acontece a mesma experiência não linear. Eles apresentam matérias usando uma imagem principal e uma coluna de texto vertical. Se tiver textos e fotos secundários, esses itens são apresentados ao lado da longa coluna de texto ou, no caso de imagens secundárias, transformando a imagem principal em um slideshow. Mesmo no iPad, muitos editores lidam com tablets usando um paradigma de meios impressos.

Otimizando interlúdios
Isso não precisa ser assim. Vamos voltar ao primeiro exemplo e imaginar uma boa narrativa linear para a palestra. Eis uma visualização gráfica de como ela deve se parecer.

Em uma boa experiência narrativa, linear, cada item que existe para acrescentar à história principal é colocado no seu lugar ideal. Por exemplo, imagine uma história sobre uma família enfrentando problemas econômicos. Supõe-se que ela inclua um vídeo de um membro da família falando sobre como ser demitido tornou as coisas piores. Em uma experiência de narrativa linear, o vídeo só seria apresentando para o público em certo ponto da narrativa principal. Quando estiver falando sobre como a família está enfrentando problemas não só porque eles perderam suas economias, mas porque um membro da família foi demitido, esse seria o momento de mostrar o vídeo. Pense nisso como uma parte da palestra: “Vamos ver um vídeo sobre como ela perder seu emprego só tornou as coisas piores.”

A narrativa principal pode ser imaginada como um encadeamento de cenas ou episódios, como uma série de TV, onde cada item adicionado é colocado ou no começo ou no final de cada episódio. Cada episódio é estruturado para que possa ser interrompido sem quebrar a estrutura narrativa.

Com a história dividida em cenas ou episódios, você pode colocar o material adicional nos intervalos. Você pode quebrar os blocos para ter intervalos onde você os quiser – antes e depois das cenas, onde quer que faça sentido para acrescentar uma mídia que reforce a história. Existem truques na TV para lidar com a “amnésia” temporal que acomete o público que consome uma história em blocos sequenciais. Você pode usar soluções similares para criar um fluxo linear, uma vez que você usou os espaços entre cenas para acrescentar material.

Narrativas digitais
Mas como nós podemos fazer isso em um meio digital? O aspecto mais importante de uma história é o tema dela, seu conteúdo. Se queremos mudar a maneira como contamos histórias, nós temos que nos ater a esse conceito básico. Cada narrador deve primeiro esclarecer qual o conteúdo. Ele será então capaz de quebrar a história em episódios, ou blocos de conteúdo – não apenas para a narrativa principal, mas também para o material extra. Numa narrativa digital, narradores não são obrigados a escolher texto em vez de áudio, ou fotos em vez de vídeo. Eles devem escolher a melhor maneira de comunicar cada parte. A escolha deve partir do próprio conteúdo. O material acrescentado a uma história deve ser apresentado de forma que possa tanto ser explorado pelo leitor quanto pulado sem que se perca o fio da narrativa.

A narrativa linear final será um fluxo de conteúdo, apresentado usando todas as ferramentas digitais disponíveis. Usando uma abordagem de temporada de série para TV, o narrador vai apresentar sua história, um episódio após o outro, de modo que não quebre o fluxo da narrativa, independente da técnica utilizada em cada episódio. Cada parte será colocada após a anterior, no exato ponto da história que melhor mantenha o fluxo. Intervalos serão usados para adicionar material. Leitores serão capazes de escolher quanto tempo eles levam para consumir cada trecho da narrativa.

Nós precisamos mudar radicalmente a maneira como contamos nossas histórias. Não faz sentido continuar usando paradigmas antigos em dispositivos novos. Nosso objetivo principal é descobrir a melhor forma de contar uma história e parar de usar técnicas que funcionam apenas para uma plataforma (seja texto e imagens no impresso, vídeo na TV ou áudio no rádio). Com a distribuição digital nós podemos misturar todas essas técnicas de forma que viabilize nossa narrativa. Precisamos mudar a maneira como nós planejamos, produzimos e apresentamos nossas matérias.

Fonte: http://www.niemanstoryboard.org/2011/09/08/story-interrupted-why-we-need-new-approaches-to-digital-narrative/

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One Response to Por que precisamos de novas abordagens para a narrativa digital

  1. natalia on 25 de outubro de 2011 at 14:10

    adorei o texto!