Programe ou seja programado

Pergunte a qualquer criança para que serve o facebook e ela vai dizer que é para ajudá-lo a fazer amigos. O que mais ele poderia pensar? É assim que ela de fato faz amigos. Ela não tem idéia de que o real propósito do software, e das pessoas que o codificaram, é monetizar seus relacionamentos. Ela sequer está ciente dessas pessoas, do programa, ou do seu propósito.


As crianças que Douglas Rushkoff celebrou em seus livros anteriores como “nativos digitais” capazes de enxergar através de todos os esforços da grande mídia e do marketing acabaram se provando menos capazes de discernir as fontes do que lêem e as intenções dos programas que usam. Se eles nem sabem para que são os programas que estão usando, eles não têm chance de usá-los efetivamente. Eles estão mais longe de se tornarem usuários poderosos do que de serem usados.

As escolas dos Estados Unidos que optaram por incluir aulas de computação em suas grades, mas em vez de ensinar programação, essas disciplinas quase sempre ensinam programas: como usar o Microsoft Office, o Adobe Photoshop, ou qualquer um dos outros pacotes comerciais de software utilizados nos locais de trabalho tradicionais (e a situação se reproduz no Brasil). Preparamos nossas crianças para conseguir empregos no atual mercado de trabalho em vez de ensinar como inovar para o de amanhã.

Para Rushkoff, essa incapacidade e recusa de lidar com os vieses subjacentes das redes e programas que todos usamos é uma ameaça à nossa experiência e autonomia como pessoa.

Quando os primeiros humanos adquiriram a linguagem, nós aprendemos não só a ouvir, mas a falar. Quando nós dominamos a escrita, nós aprendemos não apenas a ler, mas como escrever. E à medida que nos movemos progressivamente em direção a uma realidade digital, nós devemos aprender não só como usar os programas, mas como fazê-los.

Ferramentas digitais não são como ancinhos, motores a vapor ou mesmo automóveis, que podemos utilizar com pouco conhecimento sobre como eles funcionam. A tecnologia digital não apenas afeta nossos corpos, mas nossas identidades. Nossas telas são as janelas através das quais estamos experimentando, organizando e interpretando o mundo em que vivemos. Estamos fazendo mais do que estender a ação humana através de uma nova língua ou um novo sistema de comunicação. Estamos replicando a importante função da cognição com mecanismos externos, extra-humanos. Essas ferramentas não são meras extensões da vontade de um grupo ou indivíduo, mas entidades que têm a habilidade de pensar e operar outros componentes nesta rede neural, ou seja, nós.

E enquanto máquinas outrora substituíram e usurparam o valor do trabalho humano, computadores e redes fazem mais que roubar o valor do pensamento humano. Eles não só copiam nossos processos intelecuais – nossos programas repetíveis – mas eles freqüentemente desencorajam nossos processos mais complexos – nossa mais alta ordem de cognição, contemplação, inovação e de dar significado, que deveria ser a recompensa dessa “externação” da nossa aritimética para chips de silicone para começo de conversa. Quanto mais os humanos se envolverem no seu design, mais humanamente inspiradas essas ferramentas vão acabar se comportando.

Mesmo que não possamos realmente programar por conta porópria, reconhecer como esses programas que usamos funcionam já seria revolucionário por si só. Todos os sistemas tem propósitos incorporados. Quanto menos nós reconhecermos eles, mais vamos confundí-los com circunstâncias dadas. Temos que começar a tratar o mapa como o território.

Ao menos temos que chegar a reconhecer as tendências das tecnologias que estamos usando, e encorajar os mais jovens a fazerem o mesmo. Se não participarmos da construção de nosso futuro digital juntos, ela será feita por outro alguém – ou algo.

Para ler o artigo original, clique aqui.

Be Sociable, Share!

Tags:

Comments are closed.