SESC nas Aldeias

É dia de mostra de cinema no SESC Ginástico e, – os cineastas estão mexendo em seus celulares, esperando a hora de falar com o público. Esse cenário seria bem comum, se não fosse por um único motivo, os realizadores são indígenas. A partir do projeto Vídeo nas Aldeias (VNA), eles próprios fizeram filmes sobre o cotidiano de suas comunidades.

Vincent Carelli, coordenador do VNA, morou muitos anos com os índios Nambiquara, no norte do Mato Grosso, trabalhou com eles e acredita que a ideia do projeto foi, portanto, meio óbvia. Esse projeto já tinha sido feito antes nos Estados Unidos a partir de câmeras de 16 mm. No Brasil, começou exatamente no momento da revolução do VHS, entre outros motivos, porque o feedback era muito mais rápido. Sempre foi um fotógrafo apaixonado pela questão da imagem.  “A aceitação dos indígenas foi imediata. Eles viam filmes de outras aldeias e falavam que, se os outros eram assim, agora era a vez deles de mostrar quem eram.”

Carelli explicou sobre o objetivo das filmagens: “Eu fujo um pouco desse carimbo de ser um projeto antropológico, mas sem dúvida, eles fazem uma autoetnografia. O que realmente queremos é desconstruir a imagem clichê de índio”. O coordenador contou que o projeto está focado em trazer para o público da cidade essa nova interface. Principalmente, em um país que o índio só tem espaço na TV, quando é para falar de conflito fundiário. “Para eles serem minimamente reconhecidos, tem que estar com um cocar, como se sua identidade não fosse pelas experiências. A Teoria do Bom Selvagem, da época do Iluminismo, se cristalizou, a do homem da inocência e da pureza, quando isso, na verdade, é ficção”, concluiu.

Os cineastas que mexiam em seus celulares eram Kamikia, Kamatxi e Jair Kuikuro. Contaram um pouco de suas experiências no projeto com seriedade, na hora de falar de suas aldeias, e culturas, e com bom humor, quando falavam do processo de aprendizagem do uso da tecnologia. Hoje em dia, Jair posta vídeo da Academia Kuikuro, coletivo de cinema de sua aldeia, no Youtube. Enquanto converso com Kamatxi, Kamikia tira foto da entrevista. Eles são de aldeias diferentes, o que não significa que sejam inimigos. Muito pelo contrário, Jair conta que sempre que pode convida Kamikia para trabalhar com ele nas filmagens.

Jair Kuikuro, Kamikia e Kamatxi: cineastas acreditam que os filmes podem reconstruir a imagem do índio nas cidades

“A minha comunidade não entendia muito bem o fato de uma imagem continuar viva, mesmo que esse alguém morra. Mas com muita conversa sobre a importância das filmagens para o reconhecimento de nossa cultura, eles concordaram em participar. Usamos os filmes para valorizar nossos costumes e, até mesmo, como um instrumento de luta política. As pessoas da cidade costumam se surpreender com o resultado”, contou Kamikia da aldeia Goivere, do baixo Xingu no Mato Grosso, participante do projeto desde 2003.

“Às vezes, nos perguntamos: já filmamos tanto, mas cadê o filme? Mas o resultado é sempre bom. Buscamos respeito, queremos mostrar nossa realidade. Têm costumes, que são muito sagrados, e por isso, não gravamos nem imagem nem áudio. A aldeia inteira concorda com isso, achamos que não é hora. Mas se um dia virmos que é importante documentar, nós vamos fazer”, disse Kamatxi da aldeia Moingu, do baixo Xingu no Mato Grosso. Ele que começou sendo ator no filme Das crianças Ikpeng para o mundo, resolveu aprender a filmar. Disse que com o tempo a equipe costuma ficar com vergonha de assistir suas imagens por achar que não está bom.

“Comecei a participar do projeto em 2002, sempre quis aprender a filmar e consegui através do Vídeo nas Aldeias. “Sem câmera, sem filme, eu não vivo mais. Pego meu computador, assisto filmes de Hollywood e outros, como Tropa de elite. Mas não é por isso que deixo de ajudar meu povo Kuikuru. O cinema é muito importante para mim. Tem gente da cidade que pensa que isso pode acabar com a nossa vida, mas acho o contrário. Eu registro festas, costumes. Estou valorizando nossa cultura para que ela não acabe. Eu uso a câmera, mas meu tripé é aqui no meu braço”, contou Jair da aldeia Kuikuru, do alto Xingu no Mato Grosso. Apesar de estar acostumado a dizer que trabalho é chato, Jair gosta do que faz: “não tenho mais como ficar longe de uma ilha de edição, ou de usar programas como Vegas, Finalcut ou Photoshop. Na minha aldeia, eu participo de festa, de luta. Eu nunca vou deixar minha cultura para trás. Uso celular e computador, mas não deixo de cantar e tocar violão na aldeia. Eu sei que tem muito preconceito na cidade, e é isso que queremos mudar”.

A mostra dos filmes “Sesc nas Aldeias” vai até dia 29 de junho. Confira a programação completa aqui.

 

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